PALIMPSESTOS DA SERVIDÃO: NEONARRATIVAS DE ESCRAVIDÃO E DOMESTICIDADE RACIALIZADA EM SOLITÁRIA
Abstract
O presente artigo analisa a permanência da lógica escravocrata no Brasil contemporâneo a partir do romance Solitária (2022), de Eliana Alves Cruz, com foco na personagem Dadá — mulher negra submetida ao trabalho doméstico compulsório desde a infância. A partir da articulação entre ficção e casos reais de servidão doméstica, como o de Sônia Maria de Jesus, mantida por mais de quarenta anos em situação análoga à escravidão, o estudo evidencia as formas atuais de reprodução da desigualdade racial e patriarcal no espaço doméstico urbano. Amparado por autoras e autores como Sueli Carneiro (2023), Angela Davis (2016), Frantz Fanon (2020) e Achille Mbembe (2018), o artigo insere Solitária no campo das neonarrativas de escravidão, conforme proposto por Ashraf Rushdy (1999) e Timothy Spaulding (2005). Trata-se de narrativas que reconfiguram esteticamente as slave narratives, atualizando suas marcas de trauma, silenciamento e apagamento sob novas formas de violência estrutural. A análise formal da obra enfatiza o silenciamento da personagem, a fragmentação da linguagem e a espacialização da opressão. Conclui-se que a literatura, especialmente a produzida por autoras negras, constitui um campo epistêmico e político central na disputa por memória, justiça e reparação histórica no Brasil e na diáspora.
Fields of Study & Subjects
Literature
Culture
and Criticism
Race
Identity
and Education in Brazil
History of Colonial Brazil
Publication details
- Journal / source
- Caderno Seminal
- Issue
- 54
- Publication date
- 26 February 2026
- Language
- PT