Hong Sang-soo encontra Quentin Meillassoux
Abstract
O artigo explora a relação entre contingência e repetição no cinema de Hong Sang-soo, com foco no filme Certo agora, errado antes (2015). Identificamos três abordagens anteriores da obra (de inspiração deleuziana, humanista-existencial e psicanalítica) que centralizam a participação subjetiva do espectador na constituição do sentido do filme. Sugerimos, todavia, que a ênfase excessiva na perspectiva do sujeito-espectador ofusca o papel da contingência no próprio arranjo repetitivo construído por Hong. Para evidenciar essa dimensão, articulamos nossa leitura a entrevistas do diretor e à filosofia especulativa de Quentin Meillassoux (2008, 2016), para quem a contingência é a única necessidade (isto é, não há razão suficiente para que qualquer estado de coisas persista). Em suas declarações, Hong defende a ideia de “infinitos mundos possíveis” e a inserção de elementos não planejados no processo de filmagem. Essa afinidade entre o gesto cinematográfico de Hong e o pensamento de Meillassoux permite conceber a repetição no filme não como portadora de sentido, mas como indício da precariedade do próprio sentido. Ainda que certos eventos se repitam, eles o fazem por força de uma contingência indiferente ao olhar humano. Nesse ponto, uma leitura psicanalítica se torna útil: o sentido surge como função de gozo, e não como reflexo de uma ordem racional. Assim, ao destacar o papel da contingência, argumentamos que o cinema de Hong não afirma sentidos, mas os desestabiliza, revelando o esforço do sujeito em projetar inteligibilidade sobre mundos que, em sua estrutura, estão desprovidos de razão de ser.
Fields of Study & Subjects
Cinema History and Criticism
Ethics
Aesthetics
and Art
Art
and Perception
Publication details
- Journal / source
- Rebeca - Revista Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual
- Volume
- 15
- Issue
- 1
- Publication date
- 3 March 2026
- Language
- PT