O SOM DO ATABAQUE: Onde o coração da Terra bate

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Authors: Maria José dos Santos Vertuan
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Abstract

O atabaque não é apenas um instrumento de percussão; nas religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda, ele é um corpo sagrado que comunica o visível e o invisível. Este tema explora a tríplice função do atabaque: ritualística, identitária e de resistência. O som do atabaque é o veículo que convoca as divindades. Através de ritmos específicos (toques), estabelece-se uma vibração que altera o estado de consciência e permite a manifestação dos Orixás, Guias e Entidades. O couro e a madeira, elementos da natureza, transmutam-se em uma voz divina que guia a liturgia e organiza o tempo e o espaço dentro do terreiro. O título sugere que o bater do tambor ecoa o pulsar da própria vida. O atabaque guarda a memória da diáspora africana; ele é o elo que sobreviveu à travessia do Atlântico. Quando o couro é percutido, ele não toca apenas música, ele reativa a ancestralidade, conectando o devoto contemporâneo às suas raízes mais profundas e à energia vital da terra (o Axé). Historicamente, o som do tambor foi perseguido e criminalizado. Manter o "coração da terra" batendo foi um ato de bravura contra o racismo religioso e a tentativa de apagamento cultural. Hoje, o som que ecoa dos terreiros é um grito de reexistência, afirmando que a cultura afro-brasileira permanece viva, pulsante e central na identidade da nação. O texto analisa a centralidade do atabaque (tambor sagrado) como eixo estruturante das liturgias nas religiões de matriz africana no Brasil, especificamente no Candomblé e na Umbanda. Longe de ser um mero acompanhamento musical, o instrumento é aqui investigado como uma tecnologia ancestral de comunicação que conecta o plano material (Ayê) ao plano espiritual (Orun). Através de uma revisão bibliográfica e de uma perspectiva etnomusicológica, discute-se como o toque do atabaque opera a manutenção da memória coletiva e a transmissão de saberes que foram fragmentados pela diáspora forçada. O conceito de "Coração da Terra" é utilizado para ilustrar a dimensão vital do Axé (energia), onde o ritmo atua como um regulador biopsicossocial dos indivíduos na comunidade de terreiro. O estudo também aborda a dimensão sociopolítica do som. Historicamente alvo de mecanismos de repressão estatal e religiosa, o bater do atabaque é redefinido como um ato de reexistência. Conclui-se que a preservação dos toques e ritmos não é apenas uma prática religiosa, mas uma afirmação da identidade negra e um baluarte contra o apagamento cultural, reafirmando o terreiro como um espaço legítimo de produção de conhecimento e preservação da civilização africana em solo brasileiro.

Fields of Study & Subjects

Race Identity and Education in Brazil Arts and Performance Studies Caribbean and African Literature and Culture

Publication details

Pages
113–119
Publication date
1 January 2026
Language
PT
Document type
Book chapter