fissura e o martelo: um dilema em três atos –
Abstract
Neste artigo, traçamos a genealogia crítica da narrativa do ‘sequestro por engano’, originalmente apresentada no romance King’s Ransom (1959), de Ed McBain, e suas adaptações transculturais em Céu e Inferno [Tengoku to jigoku] (1963), de Akira Kurosawa, culminando, em nossa leitura de Luta de Classes [Highest 2 Lowest] (2025), de Spike Lee. Partindo da teoria da adaptação como palimpsesto e dos estudos de recepção, defendemos que a vitalidade desta premissa reside em sua plasticidade para ser ressignificada, funcionando como um sismógrafo das contradições de cada época. Conquanto a trajetória da narrativa sofra por uma metamorfose crucial, ela não abandona completamente suas origens procedurais, sendo ressignificada de maneira contínua por cada autor. Ela parte da fissura procedural em McBain, é elevada à tragédia moderna por Kurosawa e culmina na estratégia de imunização insurgente de Spike Lee. Nesta última etapa, o filme não almeja a revolução, mas opera como um martelo que golpeia as fissuras raciais e de classe do neoliberalismo tardio a partir de dentro, por meio de uma economia afetiva da saturação e do espetáculo. A análise demonstra como essa estratégia, ao converter a crítica em produto espetacular, gera uma ambivalência receptiva – da celebração à frustração – que sintomatiza o próprio paradoxo da crítica cultural na era do capitalismo tardio, na qual, ainda que haja eficácia formal, verifica-se uma potencial despolitização do horizonte de classe.
Fields of Study & Subjects
Shakespeare
Adaptation
and Literary Criticism
Cinema History and Criticism
Literature
Film
and Journalism Analysis
Publication details
- Journal / source
- Fênix Revista de História e Estudos Culturais
- Volume
- 22
- Issue
- 2
- Pages
- 22–57
- Publication date
- 8 February 2026
- Language
- PT