As retomadas indígenas e os processos de etnogênese enquanto tecnologias coletivas de saúde
Abstract
Este artigo analisa as retomadas territoriais indígenas e os processos de etnogênese como tecnologias coletivas de saúde, situadas para além do modelo biomédico e das políticas assistenciais do Estado. Parte-se do pressuposto de que o adoecimento indígena no Brasil não decorre de fragilidades biológicas ou culturais, mas de processos históricos e contemporâneos de desterritorialização, colonialidade do poder e necropolítica, que operam pela negação do território enquanto condição ontológica da vida. A partir de um ensaio teórico crítico, ancorado no campo da Saúde Coletiva, na etnologia indígena e nos estudos decoloniais, o artigo argumenta que a ruptura do vínculo corpo-território constitui a etiologia central de múltiplos sofrimentos físicos, psíquicos e espirituais observados entre povos indígenas. Em contraposição, sustenta-se que as retomadas territoriais e a etnogênese operam como intervenções sanitárias estruturantes, ao reativarem sistemas próprios de cuidado, restaurarem a soberania alimentar, recomporem temporalidades coletivas e reorganizarem o comum. Exemplos empíricos, como as experiências Guarani Kaiowá, Tupinambá da Serra do Padeiro e do povo Borum-Kren, ilustram como a luta pelo território produz efeitos diretos sobre os determinantes sociais, ambientais e ontológicos da saúde. Conclui-se que a saúde indígena é indissociável da soberania territorial e que a demarcação de terras deve ser reconhecida como medida fundamental de saúde pública, exigindo uma reorientação das políticas estatais para uma interculturalidade crítica baseada no apoio à autonomia dos povos indígenas.
Fields of Study & Subjects
Indigenous Health
Education
and Rights
Indigenous Health and Education
Indigenous Cultures and History
Publication details
- Journal / source
- Editora Científica Digital eBooks
- Pages
- 41–55
- Publication date
- 1 January 2026
- Language
- PT
- Document type
- Book chapter