Do cordel ao folhetim
Abstract
Neste artigo, analisamos a publicação do cordel O trágico romance de Doca e Ângela Diniz, inserido no Folhetim, suplemento cultural do jornal Folha de S. Paulo, voltado ao “lazer de final de semana”. O suplemento sempre destacava em sua capa um caso de grande repercussão nacional. Uma dessas capas foi dedicada ao assassinato da socialite Ângela Diniz pelo namorado Doca Street, um caso emblemático de violência contra a mulher, que permanece ainda hoje na memória social e midiática. Buscamos assim compreender como a Folha reinscreveu o crime em um espaço destinado à cultura e como essa reinscrição produz efeitos de sentido, inserindo Ângela e Doca em um imaginário de romance trágico. Analisamos ainda as representações produzidas em torno da mulher vítima e do homem assassino e o silenciamento das vozes do movimento feminista. Nossas análises foram desenvolvidas sob a perspectiva da Análise de Discurso materialista. Entre os conceitos trabalhados, destacamos as condições de produção (Pêcheux, [1969] 1997) a partir das quais um discurso sempre é pronunciado. Compreender tais condições no contexto do Folhetim permite analisar de que modo o jornalismo, ao reinscrever o caso Ângela Diniz em um suplemento cultural, produz determinados efeitos de sentido e silencia outros. As análises evidenciam como os sentidos produzidos pela mídia participam da construção e da circulação de imaginários que inscrevem a mulher no lugar da sedução e da transgressão, enquanto o homem é inscrito no lugar de vítima, sentidos que legitimam e até mesmo banalizam o assassinato de mulheres.
Fields of Study & Subjects
Gender
Sexuality
and Education
Cultural
Media
and Literary Studies
Media and Communication Studies
Publication details
- Journal / source
- Travessias
- Volume
- 20
- Issue
- 1
- Pages
- e36308–e36308
- Publication date
- 1 January 2026