Da transcrição à transcriação musical: uma proposta decolonial no contexto do Candomblé
Abstract
Este artigo problematiza o uso da transcrição musical no contexto das artes musicais do candomblé, partindo da crítica à colonialidade do saber e à violência epistêmica que historicamente marginalizam epistemes afrodiaspóricas na academia. O problema central reside na tensão entre as críticas à notação euro-ocidental como dispositivo de captura colonial e a demanda pragmática e política por formas de registro formuladas no interior das próprias comunidades religiosas. Diante desse impasse, o objetivo do estudo é propor o conceito de transcriação como alternativa de orientação decolonial para o registro e a análise das performances sonoro-rituais candomblecistas. A pesquisa adota uma metodologia qualitativa, situada e etnograficamente informada, fundamentada na dupla condição do autor como músico-sacerdote e pesquisador, e desenvolvida a partir do diálogo com lideranças religiosas, em especial o babalorixá Dofono D’Omolu. Os resultados indicam que a transcriação, ao reconfigurar criticamente a notação musical a partir do musipensar e de categorias candomblé-referenciadas como ferro, couro, núcleo estruturante, marcações, movimentos, passagens e floreios, possibilita um diálogo mais horizontal entre academia e terreiro. Conclui-se que a transcriação constitui uma estratégia contra-colonial capaz de visibilizar saberes subalternizados sem comprometer a integridade ritual.
Fields of Study & Subjects
Race
Identity
and Education in Brazil
Religion and Society in Latin America
Diverse Musicological Studies
Publication details
- Journal / source
- Cadernos Cajuína
- Volume
- 11
- Issue
- 1
- Pages
- e1647–e1647
- Publication date
- 5 January 2026