FARMACOLOGIA DA MORFINA E USO NA MEDICINA INTENSIVA VETERINÁRIA: REVISÃO DE LITERATURA
Abstract
O ópio é uma substância derivada da papoula Papaver somniferum, sendo usado por milhares de anos com fins médicos e sociais, dentre os quais os efeitos de analgesia, sono e euforia eram buscados. Os opioides exercem seus efeitos por meio da ativação de diferentes subtipos de receptores, sendo os principais o μ (mu), κ (kappa) e δ (delta). Os receptores μ estão associados a múltiplos efeitos farmacológicos, como analgesia em nível espinal e supraespinal, antidiurese, diminuição das secreções biliares e gastrintestinais, redução da motilidade propulsiva intestinal e reflexo de micção, além da diminuição das contrações uterinas. Esses receptores também implicam na indução de vômitos, euforia, imuno modulação, aumento do apetite, miose ou midríase, depressão respiratória, sedação e alterações de secreções. Já os receptores κ promovem analgesia espinal e supraespinhal, redução da motilidade gastrintestinal propulsiva, diminuição das secreções digestivas, diurese pela inibição da liberação do hormônio antidiurético, além de causar aumento do apetite, miose ou midríase espécie-dependente e sedação. Por sua vez, os receptores δ estão relacionados à analgesia em nível espinal e supraespinal, bem como à modulação da resposta imunológica e ao aumento do apetite. Estes receptores são acoplados à proteína Gi, com efeitos moleculares propostos que incluem inibição da adenilil ciclase, formação diminuída de monofosfato de adenosina cíclico (cAMP), inibição dos canais de Ca2+ nos neurônios pré-sinápticos, resultando em diminuição da liberação de neurotransmissores excitatórios (glutamato e substância P) e aumento do efluxo de potássio (K+) celular nos neurônios pós-sinápticos, resultando em hiperpolarização dos neurônios nociceptivos e nociceptores e aumento dos limiares de ativação. Embora seja observado estimulação do SNC em gatos na rotina, isso não é, necessariamente, o caso. Devido ao menor volume de distribuição nos gatos, uma dose de 0,2 mg/kg de morfina produz concentrações plasmáticas semelhantes a uma dose de 0,5 mg/kg no cão, e, portanto, doses menores de morfina (comparado a cães) são, frequentemente, bem toleradas em gatos e raramente produzem excitação do SNC (particularmente na presença de dor). O uso da morfina no intensivismo exige cautela. A morfina não está contraindicada para animais com depressão respiratória, doença respiratória grave ou animais que se administram outros fármacos que provocam depressão respiratória; todavia, esses animais devem ser rigorosamente monitorados. Administração da morfina em infusão continua pode minimizar os efeitos depressores respiratórios, evitando concentrações iniciais altas. A tolerância ao opioide consiste na necessidade de doses progressivamente maiores para alcançar o mesmo efeito terapêutico, podendo o animal tolerante desenvolver efeitos paradoxais de euforia e hiperalgesia. Em protocolos subcutâneos, utilizando 0,5 a 2,5 mg/kg duas vezes ao dia ou infusões contínuas de 1–5 mg/kg/dia, a tolerância surgiu em até 8 dias. Em gatos, doses elevadas (1–4 mg/kg/dia, via IV) por sete dias resultaram em mínima tolerância, sugerindo diferenças metodológicas ou farmacocinéticas. Contudo, em protocolos subcutâneos prolongados (1–2 mg/kg/dia por 24–30 dias), os felinos desenvolveram tolerância, superada com o aumento da dose. Sendo assim, a morfina se mostra como eficaz ferramenta de analgesia, embora seu uso isolado e excessivo acarrete em maiores efeitos deletérios.
Fields of Study & Subjects
Veterinary Pharmacology and Anesthesia
Pain Management and Opioid Use
Neuropeptides and Animal Physiology
Publication details
- Journal / source
- Zenodo (CERN European Organization for Nuclear Research)
- Publication date
- 20 January 2026
- Language
- PT