DA MELANCOLIA À DEPRESSÃO: HISTÓRIA, CULTURA E A CONSTRUÇÃO DE UM DIAGNÓSTICO
Abstract
A depressão, atualmente reconhecida como um dos principais transtornos mentais, constitui uma das maiores causas de incapacidade em nível global, sendo resultado de uma longa trajetória histórica de interpretações médicas, filosóficas e culturais. Desde as primeiras formulações sobre a melancolia na Antiguidade até a consolidação dos critérios diagnósticos nos manuais psiquiátricos contemporâneos, a compreensão desse fenômeno foi moldada por concepções biológicas, morais, espirituais e sociais (Teixeira, 2005; Ferreira, 2010). Essa pluralidade de perspectivas evidencia que a depressão não se configura apenas como uma entidade clínica estável, mas como uma construção histórica e cultural em permanente transformação (Cordás, 2016; Barbosa; Santos, 2023). Apesar do expressivo avanço das pesquisas clínicas e neurobiológicas, a dimensão histórica e cultural da depressão permanece relativamente marginal nas revisões científicas contemporâneas. Retomar o percurso que vai da melancolia hipocrática às classificações diagnósticas modernas não se limita a um exercício historiográfico, mas constitui uma via fundamental para compreender como valores sociais, práticas médicas e representações simbólicas continuam a influenciar a delimitação do que é socialmente reconhecido como sofrimento “normal” ou patológico (Teixeira, 2005; PUC-Rio, 2006). Nesse sentido, a análise de manifestações literárias e musicais revela-se um recurso relevante, na medida em que permite observar como a arte participou da simbolização coletiva do sofrimento psíquico, ora contribuindo para sua romantização, ora reforçando processos de estigmatização (Barbosa; Santos, 2023; Kehl, 2015). Dessa forma, este capítulo tem como objetivo analisar criticamente a evolução do conceito de depressão, articulando dimensões históricas, científicas e culturais. Busca-se evidenciar o processo de transição de um modelo moralizante para uma perspectiva clínica, que redefiniu tanto a compreensão médica quanto a experiência subjetiva do sofrimento psíquico. Ademais, pretende-se compreender de que modo as representações artísticas contribuíram para a construção do imaginário social em torno da doença (Ferreira, 2010; Amarante, 1994; Basaglia, 1985). Ao propor esse diálogo interdisciplinar, o capítulo visa oferecer subsídios para uma compreensão mais complexa da depressão, contemplando não apenas os avanços clínicos, mas também seus condicionantes culturais, históricos e sociais.
Fields of Study & Subjects
Historical Psychiatry and Medical Practices
Psychology and Mental Health
History of Emotions Research
Publication details
- Journal / source
- Zenodo (CERN European Organization for Nuclear Research)
- Publication date
- 6 February 2026
- Document type
- Book chapter