POST(Ai)S D'ART 2.0

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Authors: Pedro Miguel Góis
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Abstract

O catálogo de POST(Ai)S D’ART 2.0 não se encerra em si mesmo, nem se oferece como índice, simples inventário ou registo semi-exaustivo. Ao folhear as primeiras páginas, entende-se que não existe para organizar o mundo, mas para o desfocar e deslocar. O leitor não entra num sistema de referências claras e absolutas; entra num campo de fricção, onde imagens, textos, silêncios e repetições se instalam e acumulam, inspirando-se mutuamente, sem pedir autorização a ninguém. O que se vê — e se lê — é, antes de mais, Tempo. Tempo só, tempo estendido, irregular, por vezes algo excessivo. O catálogo não respeita a economia de escala da atenção contemporânea; testa-a. Insiste, volta atrás, avança, recusa qualquer progressão linear para mostrar que a repetição não é falha editorial — é método. Enquanto objeto-livro, assume plenamente a sua condição física e digital, ao mesmo tempo. Não imita uma exposição presencial, nem simula uma narrativa museológica aparente. Reencena todo o projecto expositivo e a lógica da exposição virtual dentro do mesmo corpo — formato livro — aceitando saturação, intermitência e deriva como matéria e foco editorial. A exposição que este catálogo contém, POST(Ai)S D’ART 2.0 (10.10.2025 ~ 26.02.2026), atravessa persistentemente a ideia de corpo — não como figura representativa, mas como campo de tensão, gesto, matéria e ausência. Ao longo da série, surgem corpos sem nome, formas orgânicas suspensas, fragmentos anatómicos, silêncios visuais e estruturas instáveis que expõem interiores, equilíbrios precários e superfícies em estado de fricção. O sujeito da exposição não é um tema fechado, mas um estado recorrente: o corpo enquanto território sensível, político e poético, simultaneamente exposto e incompleto, atravessado pelo erro, repetição, respiração e desgaste. Cada postal activa esse corpo de forma diferente, construindo um percurso onde identidade, forma e significado permanecem sempre em acção e deslocamento. Não se consulta este catálogo: apenas o atravessamos. Não há uma hierarquia clara e transparente; o todo funciona por proximidade, contaminação e eco. Uma imagem ganha sentido várias páginas depois; um texto ressoa retroactivamente, e assim é o próprio catálogo que se (nos) recorda de si próprio e das suas palavras ao longo de toda a narrativa curatorial. O risco existe — e é assumido — através da não-inclusão imediata. Um catálogo-grito que não explica, não guia, não traduz; serve-se apenas para a pura degustação estética. Parte do princípio de génese de que o leitor aceita perder-se nele e, apesar de uma leitura exigente — por vezes até desconfortável —, esta torna-se uma experiência profundamente intrincada entre texto e peças. Quem permanece, permanece por escolha, por opção própria e por risco assumido. Visualmente, o ritmo oscila entre grande densidade imagética e as suspensões gráficas do silêncio. O branco não é descanso neutro; é pausa intensa e tensa. O excesso não é decoração; é insistência. Não se procura uma elegância clássica, mas a sua própria presença, com o corpo do leitor a reagir e a impor a sua própria velocidade de acção: abrandar, acelerar, cansar, regressar. No fim — e no final — não há sensação de fecho ou encerramento. O objecto termina, mas o gesto continua sempre presente. A exposição permanece acessível, revisitável, reactivável, activa e em constante devir. O catálogo não encerra a(s) obra(s) — mantém-na(s) em circulação. Talvez seja isso o que mais se vê nele:não imagens, não textos, mas uma vontade clara de não se encerrar.Em si próprio.Em ti.Para tu.

Fields of Study & Subjects

Libraries and Information Services Visual Culture and Art Theory Art Technology and Culture

Publication details

Journal / source
Zenodo (CERN European Organization for Nuclear Research)
Publication date
10 February 2026
Language
PT