Gramática das Interfaces

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Authors: Guilherme MACHADO
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Abstract

A linguística moderna opera com uma decomposição analítica consagrada: distinguem-se níveis de análise — fonético, fonológico, morfológico, sintático, semântico, pragmático-discursivo — cada qual com seus objetos, unidades e métodos próprios. Essa decomposição é metodologicamente produtiva, mas gera um problema teórico fundamental: como os níveis interagem? O que acontece nas fronteiras entre fonologia e morfologia, entre morfologia e sintaxe, entre sintaxe e semântica, entre semântica e pragmática? A linguística tem sido, historicamente, mais eficaz em descrever o que acontece dentro de cada nível do que em explicar o que acontece entre eles. Este é o problema central da Gramática das Interfaces. A tese que este trabalho propõe é que as interfaces entre níveis de análise linguística constituem um objeto teórico autônomo, com propriedades específicas que não se reduzem às propriedades de nenhum dos níveis adjacentes. Essas interfaces são locais de transferência, restrição, filtragem e amplificação de informação linguística. Quando uma propriedade de um nível atravessa a fronteira para outro nível — quando, por exemplo, uma marca morfológica congela uma possibilidade sintática, ou quando uma escolha pragmática reconfigura uma estrutura semântica —, está em operação um mecanismo de interface que merece descrição e teorização próprias. O exemplo mais eloquente, e que serve como pedra de toque para toda a teoria, é o infinitivo flexionado do português. Quando um falante de português produz a sentença "Cumpre estarmos atentos", a flexão de pessoa e número no infinitivo (estar + -mos) é um fenômeno morfológico. Mas essa flexão tem consequências sintáticas imediatas: a sentença com infinitivo flexionado impõe restrições severas à ordem de palavras. Em uma língua como o português, que herdou do latim vulgar uma considerável flexibilidade posicional, o infinitivo flexionado opera como um mecanismo de congelamento sintático — uma propriedade de um nível (morfologia) que restringe as possibilidades de outro nível (sintaxe). Isso é uma interface em operação. Para teorizar esse fenômeno e os inúmeros análogos que se encontram nas línguas do mundo, a Gramática das Interfaces mobiliza três marcos teóricos fundadores: A Teoria da Informação de Claude Shannon (1948), que fornece o aparato formal para descrever a interface como um canal de transferência de informação entre níveis, com suas propriedades de capacidade, ruído, redundância e filtragem. A Gramática de Casos de Charles Fillmore (1968), reinterpretada: o conceito de transitividade — a transferência de uma ação de um agente a um paciente — é adaptado e generalizado para descrever a transferência de propriedades entre níveis de análise linguística. O Percurso Gerativo de Sentido de Algirdas Julien Greimas (1966; 1979), que descreve a geração do sentido como um percurso entre níveis de profundidade, onde cada passagem entre patamares é uma interface com regras de conversão próprias. Além desses marcos fundadores, o trabalho estabelece diálogos sistemáticos com as principais tradições da linguística moderna: o estruturalismo de Saussure, Hjelmslev, Benveniste e Bloomfield; o funcionalismo de Martinet, Givón e Halliday; a linguística cognitiva de Lakoff e Langacker; o gerativismo de Chomsky; e a teoria dos níveis da linguagem de Eugenio Coseriu. Por fim, a Gramática das Interfaces é submetida a um teste de produtividade através de uma analogia sistemática com a arquitetura computacional. A correspondência entre interfaces linguísticas e interfaces computacionais (APIs, drivers, middleware, protocolos) não é o objeto da teoria, mas seu instrumento de validação heurística. Se o modelo é capaz de gerar correspondências computacionais produtivas, ele demonstra um nível de coerência arquitetônica que transcende a mera descrição linguística — e abre caminhos concretos para aplicações em Processamento de Linguagem Natural (PLN), treinamento de Modelos de Linguagem de Grande Escala (LLMs) e pesquisa em Inteligência Artificial Geral (AGI).

Fields of Study & Subjects

Syntax Semantics Linguistic Variation Historical Linguistics and Language Studies Linguistic Studies and Language Acquisition

Publication details

Journal / source
Zenodo (CERN European Organization for Nuclear Research)
Publication date
14 February 2026
Language
PT
Document type
Preprint