Unt1tled #Format
Abstract
Este catálogo só existe como extensão do gesto que lhe dá origem. Ao longo das suas páginas, imagens, textos e silêncios acumulam-se sem hierarquia linear, produzindo um campo de fricção onde a repetição imagética não é falha editorial, mas método consciente. Unt1tled #Format, a primeira exposição individual física do artista Pedro Góis, constitui também um dos primeiros acontecimentos do Movimento Analogic Pixel, apresentando MANIF(G)ESTO: O Gesto Manual e o Refutar do Mundo Digital, texto fundador do projeto. Analogic Pixel nasce da necessidade de reflexão crítica sobre o estado da arte e do gesto, afirmando-se como proposta de resistência estética à aceleração e à automatização do olhar contemporâneo. Contra a produção sem corpo e o consumo imediato, propõe uma re-volta à criação manual, onde o gesto é pensamento e o erro é linguagem. A obra não se impõe — convida. Cada ponto desenhado à mão prolonga o tempo físico do fazer; cada traço é momento. A fruição exige tempo, atenção e presença. A técnica do pontilhismo — ancestral, minuciosa e imperfeita — transforma-se aqui em micro-resistência. O pixel digital é recusado em favor do pixel-matéria: ponto a ponto, o desenho escava o tempo. Não há imagem imediata, há acumulação. Não há clique — há insistência. O espectador deixa de ser passivo para se tornar interlocutor sensorial. A obra só se completa na presença do outro, num processo de partilha de tempo entre artista e visitante. A contemplação torna-se fusão entre olhar e gesto. Analogic Pixel estabelece pontes com o design, a arquitetura, a poesia, a caligrafia e o artesanato — não por citação, mas por infiltração. Ocupa espaços com silêncio, pausa e atenção. Utiliza materiais simples, riscadores pobres e suportes precários, afirmando a precariedade como potência criativa. O corpo do artista é presença ativa, desenhando ao ritmo da sua própria respiração. O desenho não é fim — é processo. Não é imagem — é presença. Não quer dizer — quer escutar.Analogic Pixel não recusa o digital, mas recusa o imediato. Propõe interfaces lentas, tecnologias tácteis e plataformas contemplativas, imaginando uma estética do branco que emerge da recusa da saturação. O vazio torna-se forma. O silêncio visual, superfície de respiração. O tempo dilata-se, o gesto repete-se, o erro deixa de ser falha para se tornar forma. A atenção aprofunda-se na micro-escrita do ponto. O tempo-máquina é substituído por tempo vivido. Neste contexto, a arte não é produto, mas processo sensível. Uma escrita feita com o corpo. Um código lento. Um mapa do invisível. Na exposição, o que se manifesta é tempo: tempo estendido, irregular, por vezes excessivo. Neste catálogo, esse tempo insiste, regressa e desloca o olhar, permitindo que uma imagem ressoe páginas depois. A leitura constrói-se por proximidade, contaminação e eco, mais do que por progressão narrativa. Enquanto objeto editorial, o catálogo assume simultaneamente a sua condição física e digital. Não documenta nem imita a exposição; fixa vestígios, decisões, tensões e restos de um processo vivido no corpo, no gesto e na matéria viva. As páginas organizam-se como um arquivo não linear, onde desenho, suporte, escala, desgaste e excesso convivem sem hierarquia narrativa. Não se consulta este catálogo — atravessa-se. O leitor não é guiado: deixa-se desconfortar. O objeto termina, mas o gesto permanece.O livro permanece onde o espaço terminou.
Fields of Study & Subjects
Visual Culture and Art Theory
Art
Politics
and Modernism
Technology
and Culture
Publication details
- Journal / source
- Zenodo (CERN European Organization for Nuclear Research)
- Publication date
- 1 March 2026
- Language
- PT