Vigiar e padronizar – análise da educação emancipatória freireana frente à racionalidade tecnicista que afeta os educandos pobres no Brasil contemporâneo
Abstract
Nas últimas décadas, a educação pública brasileira tem sido atravessada por reformas orientadas por métricas de desempenho, padronizações curriculares, plataformas digitais de monitoramento e políticas de responsabilização que reconfiguram o cotidiano escolar sob a lógica da eficiência, do controle e da produtividade. Nesse cenário, a escola passa a operar cada vez mais como espaço de vigilância permanente, no qual tempos, conteúdos, avaliações e práticas docentes são rigidamente prescritos por dispositivos técnicos e gerenciais que reduzem a complexidade do ato educativo a indicadores quantificáveis. Tal racionalidade tecnicista incide de modo particularmente severo sobre estudantes das camadas populares, historicamente submetidos a processos de escolarização mínimos, utilitaristas e disciplinadores, que tendem a restringir sua formação crítica e sua participação política. Diante dessa tensão, o presente artigo toma como objeto de análise o confronto entre a pedagogia freireana e os dispositivos contemporâneos de padronização e controle que estruturam a educação básica brasileira, investigando como tais mecanismos impactam a experiência escolar de estudantes pobres. Como pergunta de partida, indaga-se: em que medida a racionalidade tecnicista e vigilante que organiza as políticas educacionais atuais inviabiliza – ou tensiona – a construção de práticas pedagógicas verdadeiramente emancipadoras, e quais possibilidades de resistência podem ser construídas a partir do horizonte crítico freireano? Teoricamente, fizemos uso central dos trabalhos de Freire (1959; 1979; 1992; 1997; 2011; 2013; 2014; 2015) e dialogando com Apple (1999; 2006; 2008; 2011; 2012), Ball (1994; 2005; 2007; 2008), Giroux (1997; 2000; 2011; 2013; 2014; 2022; 2024), hooks (1999; 2003; 2009; 2015; 2018; 2022), Foucault (2008; 2009; 2014; 2020), Antunes (2005; 2006; 2009; 2017; 2018), Antunes e Pinto (2017), Dardot e Laval (2014; 2016; 2019), Laval (2019), Saviani (1996; 2006; 2008; 2012; 2013), Zuboff (1995; 2019), Han (2015; 2017; 2025), Chomsky (1998), entre outros. A pesquisa assume caráter qualitativo (Minayo, 2007), de natureza bibliográfica e analítico-interpretativa (Gil, 2008), articulando crítica social, teoria pedagógica e análise compreensiva (Weber, 1949). Os resultados indicam que a racionalidade tecnicista e vigilante converte a escola pública em espaço de controle, padronização e intensificação do trabalho docente, restringindo a autonomia pedagógica e a formação crítica dos estudantes. A dataficação das aprendizagens, a performatividade avaliativa e a plataformização do ensino reduzem a experiência educativa a indicadores mensuráveis e empobrecem o currículo. Em contrapartida, práticas inspiradas na pedagogia de Paulo Freire – centradas no diálogo, na problematização e na produção coletiva do conhecimento – demonstram potencial de resistência e reumanização do cotidiano escolar. Desse modo, a educação emancipatória afirma-se como alternativa concreta às lógicas de controle.
Fields of Study & Subjects
Critical and Liberation Pedagogy
Education Pedagogy and Practices
Global Educational Policies and Reforms
Publication details
- Journal / source
- Derecho y cambio social.
- Volume
- 23
- Issue
- 87
- Pages
- e4504–e4504
- Publication date
- 6 February 2026